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Verdade e Memória: Análise da construção do passado em 1984 de George Orwell

O direito à memória e verdade, é o meio mais importante para curar a sociedade de um recalque social. Pois, é o mais seguro em relação a uma construção da identidade e da memória coletiva, podendo se interligar ao conteúdo do ramo da filosofia jurídica, questionando-se, portanto, o seu valor ético-social. Façamos aqui uma Análise da construção do passado em 1984 de George Orwell.

Análise do filme 1984: relação com o presente e comparação com o futuro –  #dacomunicação
Cena da adaptação do livro 1984, escrito em 1949 por George Orwell e considerada uma versão mais fiel à obra, o filme: Mil Novecentos e Oitenta Quatro (Nineteen Eighty-Four) – Reino Unido, 1984

A imagem é uma cena da adaptação do livro 1984, escrito em 1949 por George Orwell e considerada uma versão mais fiel à obra, o filme: Mil Novecentos e Oitenta Quatro (Nineteen Eighty-Four) – Reino Unido, 1984. A obra apresenta, num mundo distópico de uma Londres presa em um regime ditatorial que retém e edita as informações de seus cidadãos, a fim de assegurar seu controle, aprisionar a liberdade e o discurso de ódio se tornam norma, um homem de meia idade – Winston Smith – que resiste e rebela-se contra o sistema buscando elementos do passado, da história e da memória, de si e do mundo que o rodeia, buscando através disto sua própria identidade.


O protagonista Winston Smith, é funcionário do Departamento de Documentação do Ministério da Verdade, um dos quatros ministérios que governam Oceânia, e sua função é falsificar registros históricos, a fim de moldar o passado à luz dos interesses do presente tirânico: O Grande Irmão. O Ministério da Verdade, no livro, revela uma das funções de controle populacional talvez mais sutis. Muito embora o recurso alegórico das situações trazidas no livro pareçam para a sociedade contemporânea atual absurdo. O ataque de controle aqui exemplificado revela o esforço de apagar a memória histórica dos indivíduos. A todo instante a história se perde, as informações são exterminadas a fim de modificar a memória coletiva da sociedade, e a realidade se tornar infinita. 

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Capa do livro 1984, de George Orwell

Jô Gondar, no artigo Cinco Proposições Sobre Memória Social publicado no ano de 2016, pela Revista Morpheus, debate particularmente na Segunda proposição: o conceito de memória social é ético e político, citando o sociólogo francês Maurice Halbwachs da Escola Durkheimiana. Nesse sentido, Halbwachs propõe que pensar memória, seria reconstruir racionalmente o passado, mesmo que isso sugere implicações éticas e políticas. Ou seja, estabelecer um elo entre a memória e as relações de poder, necessariamente ocasiona riscos e ameaças, já que nessas circunstâncias a memória se torna um mecanismo excepcional amplamente autoritário.

A autora finaliza o tópico do artigo, “Os discursos que almejam a imparcialidade costumam ocultar o olhar, a posição e a vontade de quem os emite. Pretendem, assim, tudo julgar sem correr o risco de serem também julgados”. Logo, a memoria é um ato político e de resistência, por essa e outras questões manter as instituições museais ativas com ações representativas é de extrema importância, pois assim, o esquecimento jamais será o arrependimento de uma sociedade.

Baixe gratuitamente o artigo: http://www.memoriasocial.pro.br/painel/pdf/publ_19.pdf

Tendo em vista as prévias reflexões, passemos de fato a análise da construção do passado em 1984 de George Orwell,
principiando pelo conceito de verdade. Na obra, observamos que há um grande cerceamento da verdade, feita pelo governo como mecanismo de controle. Nessa sociedade, todos os paradigmas referentes a ela são destruídos. A verdade pela verdade é condenada por um governo que se utiliza da manipulação como arma de poder, tendo por principal aliada a inverdade, importante ferramenta de alienação, capaz de manter os sujeitos submissos ao estado. Aliado a isso, a desconstrução do passado, ou ainda, a sua reconstrução de forma conveniente, na qual a atual versão é
sempre favorável ao governo, cuja representação se dá através da figura simbólica do Grande Irmão, é recorrente durante toda a narrativa. Percebe-se desde as primeiras páginas a aflição que a constante mudança dos acontecimentos passados causa na personagem principal, Winston Smith.

Tentou encontrar na memória uma recordação infantil que lhe dissesse se Londres sempre tivera aquele aspecto. Haviam existido sempre aquelas apodrecidas casas do século dezenove, os flancos reforçados com espeques de madeira, janelas com remendos de cartolina e os telhados com chapa de ferro corrugado, e os muros doidos dos jardins, descaindo em todas as direções? E as crateras de bombas onde o pó de reboco revoluteava no ar e o mato crescia à matroca sobre os montes de escombros? E os lugares onde as bombas haviam aberto clareiras maiores e tinham nascido sórdidas colônias de choças de madeira que mais pareciam galinheiros? (ORWEL, 1978, p. 4)

É perceptível o conflito de uma personagem que, não podendo confiar no que dizem os livros, os jornais ou qualquer outro meio, tenta desesperadamente agarrar-se a lembranças de um passado, ao mesmo tempo em que possui o entendimento de que ela é passível de falha. Entretanto, a memória parece-lhe ser a única coisa que se mostra invulnerável perante os meios de manipulação governamentais e, dessa forma, a alternativa mais confiável para (re)contar a história de sua nação.

Enfrentando a censura e a repreensão, em uma tentativa angustiada de eternizar uma memória que jamais seria ouvida, Winston começa a escrever um diário. Esse ato se dá como forma de dar vazão a sentimentos que jamais poderá demonstrar perante a sociedade totalitária em que vive, a escrita transforma-se em sua forma de escape. Além disso, existe também nesse processo uma tentativa de registrar a realidade presente, seu cotidiano e possuir, futuramente, seu passado de forma tangível e inalterável. Novamente, o direito à memória e verdade, é o meio mais importante para curar a sociedade de um recalque social.

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Cena do filme 1984, inspirado na obra de George Orwell.

A partir do excerto acima e da Análise da construção do passado em 1984 de George Orwell, pode-se observar que tendo em vista as forças reguladoras que perpassam o romance, é inevitável observar que a noção de verdade sofre um ruído, não apenas legitimadas ao contexto, mas também aos julgadores que terão pressupostos advindos de suas classes sociais e de seus contextos históricos e de suas posições de controle. Isso fica claro na modificação do passado, que pode ser observada na passagem abaixo.


Na verdade, porém (ele filosofou, enquanto reajustava as cifras do ministério da Fartura), não chegava a falsificação. Era apenas a substituição de uma sandice por outra. A maior parte do material tratado não tinha relação alguma com coisas reais, nem mesmo o tipo de ligação que se contém numa mentira declarada. As estatísticas eram tão fantásticas na versão original como na retificada. (ORWELL, 1978, p. 26)

De forma a concluir, saliento o quanto o conceito de verdade é importante para o romance, já que este se mostra de forma tão pungente na obra que não só permeia a experiência individual ou coletiva da sociedade de Orwell, mas a reescreve. Na obra, é explicita a relação simbiótica da memória com a verdade, pois é através da refeitura da memória coletiva que a verdade encontra respaldo e é somente através da “verdade” ou do que se quer verdadeiro, que o devir memória poderá ser. Considero fundamental a importância não apenas por inserir-se na literatura crítica a respeito de 1984, mas também por entender que a narrativa de Orwell se insere como texto fundador de uma linhagem de narrativas distópicas. Assim, acredito que as questões levantadas neste texto perpassam de maneira mais ou menos explicita muitas obras que partem da sociedade criada por Orwell seja para referenciá-la, remeter-se a ela ou mesmo negá-la.

Acesse também: https://clickmuseus.com.br/suecia-inaugura-a-primeira-biblioteca-de-livros-censurados-do-mundo/

Sabrina Nunes

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