As pinturas de gatos de Louis Wain: A evolução de uma possível doença mental

Filho de um comerciante de uma empresa têxtil e de uma tecelã de tapetes, Louis Wain nasceu em 1860 em Londres e conviveu com cinco irmãs mais novas. Apesar de poucas informações sobre sua infância, sabe-se que ele não frequentava muito a escola e que em 1877 estudou na West London School of Art, posteriormente atuando como professor de artes e ilustrador de revistas, como na Illustrated Sporting and Dramatic News. Aos 20 anos, após a morte de seu pai, como o único herdeiro homem da família, ele precisou sustentar financeiramente suas irmãs e sua mãe.

Em 1884, ele se casou com Emily Richardson, porém seu casamento teve fim dois anos depois, quando Emily morreu de câncer de mama. Durante a doença, a família Wain adotou um gato preto e branco, chamado “Peter”. O felino era um grande companheiro de Emily e, enquanto o artista se sentava ao lado da cama de sua esposa, o desenhava de diversos ângulos. Após a morte dela, o artista começou a desenhar e publicar cada vez mais seus desenhos de gatos, como homenagem ao bem que o felino fez à sua esposa.

Carol Singing Cats. Imagem: Museu Bethlem

O artista se tornou famoso por conta das suas ilustrações de gatos, que apareceram em vários livros, revistas, cartões postais e anuários. No final do século XIX, a criação de gatos passou a crescer, principalmente por conta das variedades com pelo comprido, e os felinos começaram a conviver cada vez mais com a sociedade. Em 1871 (quando Louis Wain tinha 10 anos), no Palácio de Cristal de Londres, ocorreu a primeira exposição dos animais, onde foram apresentadas várias raças, aumentando a popularidade dos gatos. Após a Revolução Industrial e ascensão da classe média, o contexto social expandiu o interesse pelos felinos, uma vez que uma parte da população tinha mais tempo livre e renda disponível para criar novos animais. 

Os gatos de Louis Wain possuem características humanas e suas representações antropomórficas foram extremamente bem-sucedidas na Inglaterra Vitoriana. A maioria de seus gatos era composta por personagens que caminhavam eretos, tinham expressões faciais de humanos e vestiam roupas da moda, semelhantes a caricaturas. Louis Wain também desenhou os gatos em um estilo futurista e cubista, além de ter projetos para reproduzir os felinos em cerâmica. Em 1886, a editora Macmillan pediu ao artista para ilustrar o livro infantil “Madame Tabby’s Establishment“, que conta a história de uma menina aceita na corte do rei dos gatos e vai para uma fundação aprender a etiqueta apropriada para gatos. Após a publicação, o livro foi um sucesso e Louis Wain foi convidado para desenvolver outras ilustrações de gatos. Logo depois, ele foi eleito presidente do National Cat Club, que foi inicialmente criado com o objetivo de promover a criação de gatos com pedigree, mas Louis Wain quis priorizar a saúde dos felinos. Além disso, ele também atuou na Sociedade para a Proteção de Gatos e em uma campanha contra testes em animais. 

Matéria publicada sobre Louis Wain.

Embora ele estivesse trabalhando e vivendo normalmente, o artista foi demonstrando os primeiros sinais de uma possível doença mental ao longo do tempo, através de atitudes agressivas e violentas. Em junho de 1924, ele foi diagnosticado como “louco” e internado no Hospital Springfield no distrito de Tooting. Em 1901, sua irmã mais nova, que apresentava sinais de doença mental, já havia sido internada em um hospital. Em 1925, o publicitário Dan Rider encontrou Louis Wain na enfermaria do hospital e ficou abalado ao ver o artista vivendo em um asilo sem condições ideais, enquanto suas obras ainda eram famosas e vendidas. Ele se juntou a outras pessoas e criou um projeto para arrecadar dinheiro com o objetivo de transferir o artista para outro hospital. Entretanto, o primeiro ministro do Reino Unido da época interveio e pediu uma transferência do artista para um hospital com maiores condições de tratamento, além de providenciar uma pensão às irmãs do artista como uma forma reconhecimento ao seu trabalho. Assim, ele foi transferido para Hospital Bethlem. Depois de mais de um mês no novo hospital, Louis Wain se sentiu bem o suficiente para produzir novos trabalhos para uma retrospectiva de sua arte destinada a arrecadar fundos em seu nome, na XXI Gallery. Em 1930, ele foi novamente transferido e permaneceu no Hospital Napsbury até a sua morte. Através dos materiais de arte que suas irmãs o levavam, ele continuou desenhando até quase o fim de sua vida e faleceu no dia 4 de julho de 1939, com 79 anos de idade, sendo 15 destes anos dentro dos hospitais psiquiátricos.

Ao observar os desenhos do artista, nota-se uma grande diferença no modo de representar os felinos, através das cores, formas e texturas utilizadas, abandonando as características realistas. O psiquiatra Walter Maclay, que teve grande interesse na obra de Louis Wain ao conhecer suas pinturas em uma loja de artigos usados em Nothing Hill, acreditava que o artista possuía esquizofrenia. Desse modo, seria possível ver o agravamento da doença nas pinturas dos gatos. Como Louis Wain não colocava data em suas obras, não é possível saber exatamente se essa teoria está correta. Em um artigo publicado e apresentado em um Congresso de Psiquiatria na Universidade de Cambridge, os autores apresentam o artista como esquizofrênico, distúrbio em que normalmente o paciente possui delírios, alucinações e grandes alterações comportamentais, perdendo o contato com a realidade.

Possível evolução da doença mental registrada nos desenhos. Imagem: Museu Bethlem
Kaleidoscope Cats VII. Imagem: Museu Bethlem

Entretanto, em um outro artigo publicado na Universidade de Cambridge, o professor Michael Fitzgerald, psiquiatra especializado em Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), afirma que o artista possuía a Síndrome de Asperger (SA), que é facilmente confundida com esquizofrenia. A síndrome é caracterizada por dificuldades de se relacionar socialmente e pelo interesse em padrões de comportamento restritos e repetitivos, o que também explicaria sua grande quantidade de pinturas e desenhos de gatos.

Em uma palestra na Galeria Bethlem, o psiquiatra David O’Flynn declarou que as pinturas eram essencialmente o trabalho de duas pessoas: o artista, que as criou, e o psiquiatra Walter Maclay, que organizou as obras em uma ordem supostamente cronológica associada a esquizofrenia, concedendo um novo significado. David O’Flynn não acredita que as obras representem o agravamento de uma doença e considera que todas possam ter sido realizadas na mesma época. Consonante com essa perspectiva, Chris Beetles, fundador de uma galeria de artes em Londres que possui obras do artista, também discorda da teoria do psiquiatra Walter Maclay e afirma que não há nenhuma evidência de que, conforme ele ficava mais velho, os gatos indicavam um agravamento de alguma doença.

A jornalista Lisa Hix, em uma matéria para o site Collectors Weekly, reflete que sua internação no Hospital Napsbury permitiu que o artista experimentasse novas formas de desenho, sem a preocupação com a comercialização de suas obras. Como Louis Wain era filho de trabalhadores da área têxtil, a temática de tecidos e carpetes sempre esteve presente na sua vida. Dessa forma, acredita-se que o artista começou a se inspirar nas texturas dos papéis de parede e tapetes do hospital e desenvolveu um novo padrão de desenho. Ainda, há uma suposição de que ele tenha se influenciado pelo caleidoscópio, que foi inventado em 1816 e produzido em massa como brinquedo nas décadas de 1860 e 1870, quando Louis Wain era criança.

Imagem: Chris Beetles Gallery

Apesar de existirem muitas dúvidas acerca de uma possível doença mental, o trabalho de Louis Wain revela que as experiências artísticas dependem e se relacionam com os processos psicológicos envolvidos tanto na reação às obras de arte como na sua criação. Diversas exposições de seu trabalho foram realizadas em Londres após sua morte e alguns museus ficaram com suas obras como parte do acervo. O Museu da Mente, ligado ao Hospital Bethlem, possui 55 obras de Louis Wain e atua com palestras sobre sua obra e doenças mentais, enquanto o Museu Victoria and Albert possui mais de 24 obras. Conhecido como “o homem que desenhava gatos”, o artista provoca uma reflexão acerca dos benefícios da companhia dos felinos e da importância da arte em sua vida.

Para ver mais obras do artista, acesse o link: https://museumofthemind.org.uk/collections/gallery/artists/louis-william-wain

Lara mazeto

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One Comment

  • No ano seguinte, o primeiro ministro do Reino Unido da época (interviu) interveio

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