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Aleijadinho: gênio “renascentista” brasileiro

Ouro Preto não foi uma Florença ou Siena da vida, a famosa pedra sabão não é o mármore da região italiana de Toscana e Aleijadinho não foi Michelangelo, ainda assim quando você pesquisa e aprofunda em estudos sobre a obra deste homem que esculpiu pias batismais, estátuas, portais e altares, se chega a uma única conclusão: o Brasil teve um gênio renascentista desgarrado no sertão de Minas Gerais, um gênio da mistura, um gênio mulato; um gênio com a cara do Brasil.

Antonio Francisco Lisboa, sem dúvidas um dos maiores artistas da história do Brasil e principal representante do barroco mineiro, além de ter sido um escultor esplêndido, foi com certeza um homem com uma visão artística a frente do seu tempo. No entanto, apesar do Barroco Mineiro e o Renascimento se assimilarem em termos de criticarem o teocentrismo (deus no centro do universo), Aleijadinho nunca teve a mesma tamanha visibilidade de um artista renascentista.

Nos dias de hoje se têm dificuldades para se conhecer melhor quem foi ele, pois sua biografia se resume a dados biográficos fragmentados, que até contemporaneamente não há comprovação efetiva sobre sua veracidade. Exemplo destas confusões e incertezas, é a história de sua vinda ao mundo.

O nascimento de Aleijadinho seguiu por muito tempo duas correntes distintas. A primeira é, segundo um trabalho realizado por Rodrigo Ferreira Bretas em 1848, teria nascido em 1730, pois Bretas teria encontrado um registro de batizado na Igreja de Antônio Dias em Ouro Preto. No entanto, curiosamente segundo Guiomar de Grammont, Bretas não usou nenhuma fonte histórica documental para escrever a primeira biografia de Aleijadinho, somente se inspirou no corcunda de Notre Dame (pesquisadores encontraram nas memórias de Henry Sibson, um escultor britânico do século 19 que trabalhava na catedral). Além disso, muitas passagens da biografia feita pelo autor são recriações alusivas de biografias de Rafael e Michelangelo. Já a segunda corrente, se baseia no óbito do artista, pois faleceu em 1814 com 76 anos, matematicamente falando então ele teria nascido em 1738.

Aleijadinho além de ter sido escultor, foi também talhador, arquiteto, perito e carpinteiro, um verdadeiro artista múltiplo. Considerado um gênio da arte, Aleijadinho teria aprendido seu ofício sozinho, pois pelo fato de ser filho de uma mulher negra, não teria obviamente oportunidades de ter alguma formação como escultor. Mas Antonio tinha acesso a livros impressos vindos da Europa na época, visto que era filho de um grande e renomado arquiteto/artista, o Manuel Francisco Lisboa, esse que trazia materiais de estudo e base para Aleijadinho.  

Aleijadinho alcançou a posição de mestre por volta de 1760, e passou a ter seus próprios oficiais, que trabalhavam juntamente com ele. Neste contexto, uma questão que permeou e ainda permanece viva entre historiadores, é a autenticidade das obras, para poder identificar e diferenciar as obras do mestre das obras dos seus auxiliares. De acordo com Beatriz Coelho, professora Emérita da UFMG, uma das maneiras mais fáceis de identificar o trabalho do mestre que nesse caso era o Aleijadinho, é saber que os mestres ficavam com as partes mais importantes, que requereria ser mais detalhados e que somente alguém com uma habilidade maior conseguiria fazer. Outra maneira que foi encontrada de identificar as obras como propriamente feitas pelo Aleijadinho é, que ele assinava recibos. Esses que podem ser vistos em Congonhas – MG e Igreja São Francisco de Assis de Ouro Preto. Aleijadinho também seguia uma forma estilística de esculpir comum para algumas partes dos corpos, para as mesmas obras. Exemplo disso seria: a maneira de fazer as unhas, as pálpebras, olhos, boca e nariz.

Nesta mesma época começam aparecer as obras que ele ficou propriamente responsável. Autor de muitas obras, que hoje se tornaram patrimônio da humanidade, umas das suas mais importantes obras é a Igreja de São Francisco de Assis e o conjunto de profetas em Congonhas – MG, onde Aleijadinho coloca todo seu dom em vigor e vai explorar cada espaço possível.

Fonte: Site Escola Educação

Por volta de 1777, quando teria 40 anos, Antonio Francisco Lisboa adoece, começa-se a revelar uma doença que se inicia pelos seus dedos do pé. Seus dedos caem e ele passa a não andar mais, em registros documentados é possível saber de episódios onde os auxiliares de Aleijadinho o carregam, pois já não teria condições de andar. Sua doença até hoje ainda é cercada por dúvidas, não há um diagnóstico definitivo, mas o que chega mais perto do que ele teria tido é a Lepra.

Bretas articula em seu texto, lendas e explicações populares para a doença. Ele vai dizer que Aleijadinho busca no sofrimento inspirações para esculpir. Vianna Moog, chega a afirmar que o Aleijadinho teria sido um precursor do movimento internacional pela recuperação e readaptação dos deficientes físicos. Um consenso interessante era de que Aleijadinho tinha uma doença contagiosa, e lepra foi a hipótese que conquistou mais adeptos. Entre muitas especulações as pessoas se dividiram em dizer que a doença era sífilis ou bolba. Bretas dá um caráter voluntário à doença, que se abate como uma maldição sobre o artista. Mas depois de muito tempo de discussões pra tentar descobrir o que seria a tal doença, muitos textos de médicos e não-médicos vão dizer que é Lepra ou mal de Hansen. Aleijadinho vai se tornando cada vez mais vítima da própria doença, e é poupado das agonias em meio a gritos e horrores, e morre em 18 de novembro de 1814, curiosamente 2 dias antes do Dia Nacional da Consciência Negra.

DICA DE FILME:

  • ” O Aleijadinho: Paixão, Glória e Suplício”, de Geraldo Pereira (2003)
  • ” Cristo de Lama”, de Wilson Silva (1966)

Este texto não reflete necessariamente a opinião do Click Museus.

Sabrina Nunes

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One Comment

  • Importante destacar que a tarefa de determinar autenticidade cabe ao perito de arte, com o auxilio de outros profissionais como são (por exemplo) os historiadores. Existem historiadores que atuam como peritos de arte porém é a palavra Perito a que deve ser indicada quando se questiona ou confirma a autenticidade das obras de arte (neste caso). Parabéns pelo texto, um elocuente e claro escrito que resume a controversa historia do mestre.

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