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Quem tem medo do corpo das mulheres? Performance MAMIL(a)S

Conheça a Performance MAMIL(a)S do Desvio Coletivo

Foto: Leandro Brasilio – Performance MAMIL(a)S, do grupo Desvio Coletivo

O Brasil é mundialmente conhecido por, supostamente, ser o país da bunda e do futebol. Na efervescência dos anos 90, o corpo, principalmente o das mulheres, foi objeto de exploração midiática destinado a todos os públicos, enchendo de dinheiro os bolsos dos empresários e produtores que não hesitaram em colocar pessoas semi-nuas na TV aberta, justamente no horário dedicado à família tradicional brasileira.

Foram inúmeros programas de TV, comerciais de cerveja, musos e musas de bandas musicais, animadores e animadoras de plateia e uma infinidade de outros exemplos que ajudaram a construir o imaginário coletivo brasileiro acerca do corpo, ou da “função” do corpo da mulher.

O corpo da mulher como objeto, seja de contemplação ou lucro, não é tido como tabu. Por que razão, no espaço público, esse corpo não tem a mesma liberdade?

Conheça do Desvio Coletivo

O Desvio Coletivo, grupo brasileiro que desde 2011 desenvolve intervenções e performances urbanas, baseado na cidade de São Paulo, vai estrear a performance MAMIL(a)S, no próximo dia 28 de novembro, na Avenida Paulista.

A ideia do projeto não é reivindicar o direito do corpo feminino poder andar sem blusa pela rua, apenas porque é permitido aos corpos masculinos. O projeto é utiliza um recorte específico, os mamilos, para discutir a liberdade e a igualdade que, em tese, é garantida a todos os corpos.

O que é a Performance MAMIL(a)S?

MAMIL(a)S é uma reflexão sobre o impacto, o efeito que essa a cultura do patriarcado causa na sociedade, começando na história da humanidade e desembocando na cultura do estupro.

Nesse novo projeto, o grupo pretende discutir qual é a função dada ao corpo da mulher, quais limites esse corpo encontra na rua e por que razão às mulheres é destinado tratamento diferenciado em relação aos homens. Tudo isso será expressado, em silêncio, com corpos completamente cobertos por um tecido, apenas com os mamilos e as MAMIL(a)S a mostra.

A ideia é borrar o entendimento de que existem corpos masculinos e corpos femininos. Existem corpos.

Nascimento da Performance

O projeto nasceu do mal-estar em sempre perceber o corpo da mulher como fonte de lucro/prazer/contemplação, nunca como instrumento político capaz de fazer revolução. Algo que nem à história da arte escapou, pois mesmo nela o corpo das mulheres foi reservado o lugar de objeto.

Muito antes da invenção da televisão, o corpo da mulher já era retratado como algo a ser consumido, ou meramente contemplado. Inúmeros são os exemplos de obras das mais variadas linguagens artísticas, espalhadas por museus e galerias em todo o mundo, em que a mulher aparece quase sempre a partir da visão masculina, pelas mãos de pintores e/ou escultores de sua época, como é o caso da escultura Vênus Capitolina.

Foto de Divulgação: Desvio Coletivo

De autoria ainda não confirmada, a estátua de 1,93 metros é caracterizada pela posição das mãos da Vênus, incomum nas esculturas de nus femininos. Como se estivesse saindo do banho, ela tenta cobrir modestamente os seios e as partes íntimas. O que se sabe é que a obra é uma variação de Praxíteles, escultor grego que criou a ideia do nu feminino. Há controvérsias sobre a sua data de criação, no entanto ela remonta ao século 4 a.C.[1]

Mas, por que razão, séculos e séculos depois, o corpo da mulher ainda é tido como um tabu? Fica claro que o tabu reside justamente na função do corpo da mulher, e não nele propriamente dito.

Visão da Idealizadora do Projeto

Para Priscilla Toscano, uma das idealizadoras do projeto “a função dada ao corpo da mulher é sempre a do corpo domesticado, dócil, servil. A sociedade patriarcal espera que o corpo da mulher esteja no lugar de mãe/esposa (para amamentar e se dedicar a manutenção do lar) ou de objeto (para ser consumido), sempre passivo, inerte. Enquanto o corpo do homem sempre foi tido como o corpo do espaço público, da força, do poder.”

A proposta de MAMIL(a)S é desviar o sentido da suposta função do corpo da mulher determinado pela história da humanidade, que o entende como instrumento maternal/contemplativo (corpo passivo, dócil e domesticado), para que, na rua, assuma posição política e questione os limites impostos pela mesma sociedade patriarcal que, num movimento de regurgitação, o consome em demasia e ao mesmo tempo o rejeita, fazendo com que o país da bunda, seja também o país da violência contra mulheres.

O principal mote para o desenvolvimento deste projeto é a imposição legal dedicada às mulheres que, empoderadas, pretendem-se donas de seus corpos. Mas não são. O Código Penal Brasileiro, no artigo 233, criou a figura do ato obsceno, entendido como a prática de obscenidade em lugar público, ou aberto ou exposto ao público, punindo tal prática com pena de detenção de 03 (três) meses a 01 (um) ano, ou multa.

Significa dizer, que aos olhos do legislador brasileiro aquele que praticar alguma obscenidade em público, deverá ser repreendido. Ou melhor: AQUELAS que praticarem!

#SayHerName, movimento contra a violência de mulheres negras pela polícia dos EUA (2015)

Visão Juridica do Projeto

Segundo Leandro Brasilio, advogado e um dos idealizadores do projeto “há um caráter sexista na interpretação da legislação. A Constituição Federal assegura que todos (E TODAS!) são iguais perante a lei, no entanto, na prática, fica a cargo do agente do Estado interpretar se aquilo se enquadra no dispositivo legal e, por isso, deva ser considerado crime. Nos meus mais de 10 anos de prática jurídica, nunca me deparei com o corpo masculino penalizado por circular sem camisa em lugares públicos. Meu questionamento enquanto homem cis é: porque razão ao corpo das mulheres não é dado o mesmo tratamento que ao corpo do homem? O que o agente do Estado enxerga e o que ele deixa de enxergar na aplicabilidade de lei?”

A Constituição Federal de 1988 diz “que todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e estrangeiros residentes no país à inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade”, parece, portanto, que estamos diante de um limbo jurídico e social: quem confere aos corpos masculinos o privilégio de descumprir a lei? Ou melhor: quem criminaliza o corpo da mulher em detrimento do corpo homem?

Essas são algumas das questões que serão abordadas durante o desenvolvimento do projeto, que convida pessoas maiores de idade (cis ou trans – com ou sem experiência artística) a se juntarem ao Desvio Coletivo para intervir no espaço urbano, política e poeticamente, em busca da seguinte reflexão: quem tem medo do corpo das mulheres?

Sabemos que existem inúmeras respostas para essa pergunta, ou que existem inúmeras outras maneiras de elaborá-la. E para fugir do clichê “mulher preta x mulher branca x mulher gorda x mulher magra x mulher rica x mulher periférica…”, sempre colocando mulheres em oposição – outra estratégia do patriarcado – é que todas e todos podem participar da performance, dispondo de seus corpos no espaço urbano como instrumento questionadores do padrão hetero-cis-pratiarcal que pesa sobre a vida de mulheres – cis e trans – de todas as partes do mundo.

O objetivo do projeto, obviamente, não é apenas discutir a legalidade em poder ou não caminhar com a parte superior do corpo descoberta. É, sobretudo, promover uma reflexão acerca do corpo da mulher e de sua função na sociedade, que passa pela história da arte, da religião, da política, da pornografia, até a invisibilidade do fardo que as ditas “donas do lar” suportam durante toda a sua vida.

Participe

Para se inscrever e participar de MAMIL(a)S, que acontecerá no dia 28 de novembro de 2021, as 15h00, na Avenida Paulista, basta preencher este formulário: Inscrição – MAMIL(a)S

Mais informações sobre o grupo podem ser encontradas no LINK e no Canal do Youtube

Para entrar em contato com o grupo, os canais são Instagram (@desviocoletivooficial) ou e-mail (desviocoletivo@gmail.com)

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[1] https://www.revistabula.com/10087-os-10-nus-femininos-mais-importantes-da-historia-da-arte/

Desvio Coletivo

O Desvio Coletivo é uma rede de criadores que atua na fronteira entre a arte urbana, a arte da performance e as artes visuais. Por meio de intervenções artísticas em diferentes espaços, desenvolve ações que geram ilhas de desordem efêmera de natureza poética e crítica. Fundado em 2011, a pesquisa do grupo leva em consideração a criação colaborativa, subvertendo as funções hierárquicas de uma criação artística, cedendo espaço para que o cidadão comum se torne o protagonista das obras inserindo questões intrínsecas à sua experiência de vida. Dessa maneira, abre-se a real possibilidade de interação com o imaginário da cidade, vez que as obras surgem a partir de experiências de artistas e não-artistas na cidade, sem o tradicional distanciamento entre obra e vida, artista e público. Tudo é arte na e para a cidade.

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