Quando a serenata me escolheu

De Fredi Jon

Antes de entrar no mundo das serenatas, eu folheava a revista Veja São Paulo como quem procura uma porta de saída. Nos anos 90 e começo dos anos 2000, era ali que o mercado de eventos respirava. Era ali que tudo acontecia.

Eu ligava, tentava, e de novo e de novo. Precisava pagar as contas. Precisava viver. Precisava encontrar um jeito de continuar sendo músico sem abrir mão da alma.

Foi assim que acabei trabalhando com um ator que fazia telegramas animados. Ele entrava com o teatro. Eu entrava com a música.

A gente chegava de surpresa em casas, empresas, hospitais. Nunca sabia o que existia do outro lado da porta. Nunca sabia se encontraria risos, silêncio, feridas abertas ou saudades adormecidas.

Um dia, fomos fazer uma homenagem durante o almoço de uma família. Mesa posta, conversas cruzadas, talheres batendo, vida acontecendo.

Na hora de entrar, sem saber por quê, escolhi cantar Leãozinho, do Caetano. Não foi estratégia. Foi instinto. Foi coração.

Quando comecei a cantar, uma mulher deixou o prato cair no chão. O barulho ecoou pela sala. Logo depois, veio o choro. Um choro profundo, desarmado, irrefreável. Eu parei, assustado, com medo de ter errado.

Ela se aproximou, segurou meu braço e disse: “Essa era a música que eu cantava pro meu filho. Todos os dias.” Respirou fundo e completou: “Eu não escutava essa música há anos.”

Naquele instante, eu entendi. Eu não tinha escolhido aquela canção. Aquela canção tinha me escolhido.

Ali percebi que a música chega onde a gente não alcança, atravessa o tempo, toca feridas que nem sabiam mais sangrar e reconecta pessoas com partes da própria história que estavam escondidas.

Isso aconteceu no final dos anos 90. E, desde então, eu não parei mais.

Porque naquele dia ficou claro: eu não estava entrando num mercado. Eu estava entrando numa missão. Não era só trabalho. Não era só sobrevivência.

Era servir de ponte entre o que foi, o que é e o que ainda pode ser.

E foi assim que eu decidi, sem nunca ter decidido: deixar a vida me transformar em serenata.

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