O que você ainda está deixando pra depois?
Por Fredi Jon
O pedido da Mariana nos chegou como um segredo.
Ela já sabia. Disse isso com uma calma desconcertante. A doença estava avançada, mas o que ela queria não era lamento, nem despedida explícita. Queria uma serenata. Queria celebrar. Queria, acima de tudo, agradecer.
E havia uma condição: ninguém poderia saber.
Nem amigos, nem família. Aquela noite precisava ser leve. Precisava ser bonita, ser lembrada como um encontro de amor, não como um adeus anunciado.
Confesso que aquilo me atravessou de um jeito estranho. Porque, veja… a gente está acostumado a cantar para celebrar a vida, mas ali, pela primeira vez, eu tinha consciência de que estava cantando dentro do fim.
Era uma tarde de novembro na Granja Viana, em SP. O cenário parecia conspirar com ela: muito sol e pássaros em festa. Tudo aparentemente comum. Mas nós sabíamos, e ela sabia que nós sabíamos. E talvez por isso cada música ganhou outro peso.
Mariana circulava entre os convidados com uma presença difícil de explicar. Não havia tristeza no rosto dela. Havia intenção. Cada abraço era inteiro. Cada olhar, definitivo. Ela não estava se despedindo, estava registrando.
Quando começamos a tocar, percebi algo raro: ela não ouvia as músicas… ela entregava as músicas, como se cada verso fosse uma mensagem silenciosa para alguém específico ali.
Em determinado momento, ela falou.
Nada de revelações. Nada de drama. Falou sobre família, sobre o quanto a vida passa rápido quando a gente adia o essencial. Disse que aquele encontro era um lembrete, quase um chamado, para que ninguém ali esquecesse de amar enquanto há tempo.

E então, inesperadamente, falou de nós.
Disse que a serenata era uma travessia. Uma ponte invisível entre o que foi vivido e o que ainda ecoa dentro das pessoas. Disse que existia algo de sagrado em reunir música e amor no mesmo instante. Chamou isso de missão.
Terminamos sob aplausos, risos, fotos… como qualquer outra festa. E talvez tenha sido exatamente isso que ela quis preservar: a normalidade como último gesto de amor.
Dias depois, a notícia veio. Mariana partiu.
E, com ela, ficou uma pergunta que não me abandona: o que é que você ainda está adiando dizer?
Porque a verdade é dura… e a gente evita encarar.
A maioria de nós só descobre o valor de um abraço quando ele já virou lembrança. Só entende a urgência do amor quando o tempo já não negocia mais. Mariana não.
Ela teve a coragem que falta em quase todo mundo.
Ela olhou para o fim… e, em vez de se esconder, transformou aquilo no gesto mais generoso possível: amar sem aviso, sem peso, sem exigir nada em troca.
E nós estávamos lá. Cantando.
Sendo cúmplices de um segredo que era sobre lucidez.
Porque, no fim das contas, não foi ela que partiu primeiro, foi o nosso conforto com a ideia de que ainda dá tempo.
E quando essa lembrança volta, ela confronta: quantos tiveram a lucidez da Mariana… e quantos ainda vivem como se o tempo fosse garantido?
O adeus consciente é raro, mas as palavras essenciais nunca foram.
E mesmo assim, a gente adia, como se o tempo esperasse, mas ele não espera.
E o mais duro não é faltar tempo no fim, é ter tido antes… e não ter dito.
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Fredi Jon – O Cantador de Histórias reúne relatos reais vividos ao longo de 25 anos de serenatas, encontros e música. Entre noites inesquecíveis, surpresas românticas, momentos engraçados e situações emocionantes, o autor compartilha experiências marcantes que só quem vive a música tão de perto poderia contar.
Cada história revela bastidores curiosos das serenatas, mostrando como a música é capaz de aproximar pessoas, despertar sentimentos e criar memórias que ficam para sempre.
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